sábado, 24 de maio de 2008

União Européia e as Línguas

Acredito que você, leitor, já tenha escutado falar na Europa (caso nunca escutou, favor desligar a TV, deixar de ver a novela de mutantes da Record, ou a de "movimento estudantil" da Globo, e vá ler qualquer coisa, nessas horas de desespero até a wikipédia serve). Vários países, uma variedade cultural riquíssima, cidades, museus, arquiteturas peculiares, vinhos, azeite, praias espanholas (a Daniela Cicarelli tem boas histórias de lá, heheh), ilhas gregas, alpes suíssos, baladas de Praga, fiordes da Escandinávia... Acredito que não exista alguém que não tenha pensando por um minuto em "fazer a Europa" nas férias, estudar lá por um tempo, fazer intercâmbio... Dar uma passeada por lá, cruzar vários países pequenos (alguns do tamanho de uma cagadinha de mosca no mapa-múndi), muitos com línguas diferentes entre si... Línguas diferentes? Puuuuta merda, é mesmo! Situação inusitada e embaraçosa, não? Ainda mais para nós brasileiros acostumados a viver num país gigantesco que fala essencialmente uma só língua, adicionando o fato de que nossos países vizinhos falam uma língua parecida com a nossa, o que facilita o entendimento sem o estudo prévio. Mas alemão, basco, húngaro, romeno, norueguês, entre outros, são mesmo para matar o pião, não é mesmo? Isso me fez lembrar uma amiga esperantista que tenho, Aldona Ubik, que por acaso nasceu na Polônia mas mora com a família já há um bom tempo na Alemanha, perto da tríplice fronteira com a Suíça e a França. Ela me falou da jornada diária dela, o que me fez ficar de cara: acorda na Alemanha, toma café com a família, e vai trabalhar na Suíça (que já é uma miríade de línguas e dialetos). Terminado o serviço, vai para a faculdade na França, onde cursa economia! Muito se fala, com a União Européia em vigor, em acabar com as fronteiras, mas ao meu ver a política de acabar com as fronteiras não pode ser algo apenas relativo às tarifas alfandegárias ou à entrada e saída de pessoas, é preciso uma política democrática que vise a comunicação, e que cada nação adquira ônus e bônus semelhantes.
O que se vê, desde os tempos mais primórdios é a imposição de uma língua sobre outras... No período Helênico era o grego, nos tempos do Império Romano era o latim, nos tempos dos nossos pais e avós era o francês, na União Soviética era o russo (e o papel de influência do russo ainda é bem grande no leste europeu, principalmente os países bálticos - Estônia, Letônia e Lituânia), e hoje em dia, principalmente no nosso mundinho ocidental, devido ao prestígio econômico, político e bélico inicialmente da Inglaterra e agora dos EUA, o inglês figura como a língua balcânica (eu explico: não dos Bálcãs, mas de balcão mesmo. Do balcão de aeroporto grande, de balcão de hotel, de balcão de grandes corporações estrangeiras, etc). E aí, como a União Européia responde a isso? Bom, a UE possui 23 línguas oficiais e adota uma política de "igualdade e diversidade", ou seja, pelo menos no papel o inglês possui o mesmo valor que o húngaro, o francês o mesmo que o polonês, assim como o sueco e o alemão, implicando que todo e qualquer documento emitido por um país deve ser traduzido para as línguas alheias, o que possibilita 506 combinações possíveis de línguas (23 x 22, acabei de conferir na calculadora!). Todo o país também tem direito de usufruir as seções de reuniões traduzidas para pelo menos um dos seus idiomas oficiais, o que provoca um caos terrível (haja cabine tradutora!) e tal trabalho de tradução simultânea é muito desgastante para o tradutor, demandando então mais tradutores. Tudo isso vai no orçamento do cidadão europeu de um país-membro, dos suecos aos romenos. Como um quase-geógrafo, eu poderia desenvolver nesta coluna algo no tocante ao gasto de papéis em toda essa operação de traduções de documentos, passando pelo processo poluidor de branqueamento de celulose (e lembro-vos que o Brasil através da Aracruz e amiguinhas é um grande exportador de papel e celulose para os EUA e Europa), das árvores cortadas, do mal que a silvicultura de pinus e eucalipto faz, mas paro por aqui, só peço ao Sr. vegetariano militante para tirar só um pouquinho os olhos direcionados aos comedores de carne que sustentam o desmatamento provocado pela pecuária através da picanha no forno e reflita sobre o que eu disse! Pronto mãe, pode comer a sua picanha, mas deixe um pedacinho pra mim! Gostaria de desviar um pouco o viés desta prosa: alguém aqui já pensou como é difícil achar um tradutor húngaro<=>sueco? Ou tcheco<=>grego? Pois é, né? Aí o que os espertos (leia: países de línguas majoritárias) fazem? Arranjam desculpas para privilegiar suas línguas, usando o prestígio político que elas já têm por motivos históricos.
O engenheiro e economista Leonard Orban (fig. à direita), responsável pela cadeira sobre multilingüismo na UE desde 2006, já confessou que coisas mais urgentes são traduzidas apenas para algumas línguas em detrimento de outras. O próprio também afirmou, sem cerimônias, que na prática algumas línguas deverão mesmo ser naturalmente "mais oficiais" que outras. E pasme, quando indagam pelo esperanto - um idioma neutro, de gramática, pronúncia e conjugações verbais regulares, além de barato de aprender - como língua-ponte, o que acarretaria maior igualdade e menores custos no orçamento, já que a cada novo idioma no bloco as combinações crescem em progressão geométrica, Orban é radicalmente contra, se contradizendo falando que deve-se prezar a diversidade lingüística e que o esperanto a ameaçaria, além de dizer que todas as línguas da União Européia são iguais juridicamente, dizendo que no bloco a igualdade entre as línguas é uma realidade! Tal comportamento seria compreensível, apesar de igualmente repugnante, se ele fosse nativo de um país de idioma oficial prestigiado, como é o caso do inglês, francês ou alemão, mas se trata de um romeno, ou seja, nascido num país bastante pobre (apesar do IDH de 0,805 no ano de 2006 para inglês ver), que possui uma diáspora de refugiados pedintes em vários países do mundo, tendo um idioma oficial que possui um prestígio ínfimo, bombardeado cada vez mais por influências eslavas (que em contexto de UE já não são grandes coisas).
Poderio lingüístico é algo que dá dinheiro, e os países por cima da carne seca não querem largar o osso. A Inglaterra, segundo meu antenado amigo esperantista e ex-professor de inglês e alemão Emilio Cid, ganha mais dinheiro em cima do "sonho de ser cidadão do mundo" vinculado à língua inglesa - através de franquias de escolas de idiomas, intercâmbios, certificações de Cambridge, etc - do que em cima da exploração de petróleo no mar do Norte. O próprio British Council já está articulando um curso gratuito na rede mundial de computadores, suspeitosamente devido à ameaça do chinês e do espanhol (neste caso mais especificamente nos EUA) à soberania anglófona, fora o prestígio bem maior da variação diatópica (leia: grafia e "sotaque") e do modus vivendi americanos em relação aos britânicos. É a velha tática do "vão-se os anéis e ficam-se os dedos". Porém, o Sr. Orban talvez não percebe que culturalmente nenhuma língua é inferior à outra, nem poderia ser menos privilegiada que outra, e se porta como conivente da atual situação perversa mesmo se tratando de um romeno, utilizando como muletas a contradição e o senso comum. Que papelão, heim Sr. Orban!

Retirado integralmente do meu blog pessoal Opiniões do Queiroz.

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